Curiosidades sobre o incrível álbum Kind of Blue, do Miles Davis

Kind of Blue, álbum do genial trompetista Miles Davis, chega aos seus 60 anos, depois de ter influenciado e inspirado milhões de artistas pelo mundo. O disco, que além de uma perfeita construção única musical, é quase que fundamental (ou de fato é), e gera o sentido intrínseco sentimental, como um balde de tinta azul e cool em toda uma geração artística.

O álbum fez com que todos questionassem de onde vinha tanta eloquência sublime, melancólica, romântica, meditativa e sedutora: o jazz bebop não era mais o mesmo e nem o “papai/mamãe” das harmonizações tonais.

Miles reuniu seu sexteto – o saxofonista tenor John Coltrane, o saxofonista alto Cannonball Adderrley, o contrabaixista Paul Chambers, o baterista Jinmy Cobb, e o novo integrante, o pianista Bill Evans – no estúdio da Columbia em Manhattan, uma ex igreja. Assim, forneceu rapidamente aos músicos suas ideias e linhas melódicas dentro das improvisações e, em nove horas, Kind of Blue estava gravado sem ensaios.

Talvez seja pouco tempo, mas as ideias que Miles ja havia triturado em sua mente e nos seus últimos trabalhos, Milestones e a versão de Porgy and Bess, se concretizaram em uma obra revolucionária para os padrões jazzísticos e inovadora para público e crítica.

As músicas do lado A, So What, Freddie Freeloader e Blue In Green, foram gravadas em 2 de março de 1959, e o lado B, All Blues e Flamenco Sketches, registrado em 22 de abril. O disco foi lançado em 17 de agosto e é maior sucesso comercial de Miles Davis e considerado seu melhor trabalho, além de ser o mais bem-sucedido álbum de jazz de todos os tempos, tornando-se uma constante nos primeiros lugares de inúmeras listas de “Melhores do Século” e votações de “Os 100 Mais”.

Apesar de todas as teorias musicais conspiratórias pré e pós Kind of Blue, o disco é muito vendido até hoje e provavelmente um dos únicos itens de jazz em uma discoteca pessoal de rock/pop. A maioria das músicas se tornaram standards, interpretadas por milhares de músicos, inclusive os não jazzísticos.

Existe uma biblioteca vasta sobre a obra, desde sua concepção e registro, até a sua suposta influência sobre as mais diversas expressões artísticas: por exemplo, nos anos 90, Hollywood usou o álbum como uma tradução instantânea da modernidade; Na Linha de Fogo mostra o agente secreto Clint Eastwood, solitário, cool, em casa, ouvindo “All Blues”; em A Vida em Preto e Branco, um grupo de colegiais dos anos 50 vivencia seu despertar intelectual ao tema de “So What”; em Noiva em Fuga, a personagem de Julia Roberts presenteia Richard Gere com um vinil original de Kind of Blue.

No livro “Kind of Blue – A História da Obra-Prima de Miles Davis”, Ashley Kahn fala sobre seu desafio em examinar o que havia de verdadeiro na mitologia do disco: todo o álbum teria sido de fato improvisado e não planejado? Miles realmente compôs tudo? O disco mudou o território do jazz para sempre e, em caso positivo, como? E esta análise parte principalmente do pré suposto de que alguns veem Kind of Blue como o som da Nova York dos anos 50; alguns como o ponto alto da carreira de Miles; outros, como mais um produto de sucesso de um selo no auge de seu domínio.

A verdade é que 60 anos se passaram e o balde de tinta azul, com paleta melancólica, cool, suave, sensual e introspectiva, dita as regras de um estilo musical nada popular até hoje: indagado sobre sua música favorita para namorar, Anthony Kiedis, do Red Hot Chili Peppers, respondeu: “Para os momentos mais demorados, eu coloco Kind of Blue”. Por causa da “atmosfera de transe que criava, era como uma ambiência sexual. Uma espécie de Barry White de seu tempo”, recorda-se Donald Fagen, do Steely Dan.

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