Por que as grandes empresas estão abandonando o Facebook?

PRA PENSAR ·

Em fevereiro deste ano, a Folha de S. Paulo, um dos maiores jornais da América Latina, anunciou subitamente que estava deixando de distribuir seus conteúdos pelo Facebook. “As desvantagens em utilizar o Facebook como um caminho para essa distribuição ficaram mais evidentes após a decisão da rede social de diminuir a visibilidade do jornalismo profissional nas páginas dos seus usuários”, escreveu o jornal em comunicado ao público.

A decisão da Folha causou surpresa por abandonar a ferramenta pouco após ela atingir o marco de 2 bilhões de usuários. A mensagem do jornal é muito clara: está muito difícil competir com as fake news, cada vez mais disseminadas dentro da rede social.

A justificativa foi fundamentada por uma decisão do Facebook anunciada em janeiro: para promover mais interações entre as pessoas e conter a propagação de notícias falsas, a empresa passaria a favorecer posts de amigos, familiares e grupos no feed dos usuários em detrimento das páginas de marcas.

O problema é que as fanpages já sofrem bastante para distribuir seus conteúdos. A rede social de Mark Zuckerberg diminui ano após ano o número de perfis que recebem as publicações feitas por elas – tudo justificado por um algoritmo obscuro e inflexível, que praticamente obriga os administradores a investir mais e mais dinheiro para impulsionar suas postagens. A página do Nex, por exemplo, tem um alcance médio de 400 pessoas por post, o que representa apenas 1,5% da nossa base de likes.

Mas não para por aí. O problema com as fanpages é apenas uma fração da crise institucional e de confiança que o Facebook enfrenta perante a opinião pública e governos do mundo inteiro. Em março, explodiu o escândalo da Cambridge Analytica, uma empresa que teve acesso a dados de 87 milhões de pessoas utilizando curtidas e testes de personalidade aparentemente inofensivos (Como você vai estar daqui 20 anos? Quem você foi em vidas passadas?). Com as informações em mãos, a CA traçou estratégias para influenciar a última eleição presidencial americana – onde Donald Trump foi eleito em meio a suspeitas de utilizar fake news deliberadamente durante a campanha.

interna_facebook
Foto Divulgação

A revolta foi tão grande que, no último dia 10, o próprio Mark Zuckerberg foi convocado para prestar esclarecimentos ao Senado Americano. Em um depoimento de mais de 5 horas, o CEO do Facebook pediu desculpas pelas falhas de segurança e a lentidão da empresa em encontrar soluções para estancar a circulação de fake news e sua exploração por agentes políticos. “Não adotamos uma visão ampla o suficiente de nossa responsabilidade e isso foi um erro enorme. Foi meu erro, e sinto muito. Eu comecei o Facebook, eu o administro e sou responsável por tudo o que ocorreu”, disse ele.

A crise de confiança enfrentada pela rede social provocou reações fortes. Brian Acton, um dos criadores do Whatsapp, publicou um tweet no dia 16 de março pedindo abertamente para as pessoas deletarem seus perfis.  O movimento Delete Facebook tem engajado cada vez mais pessoas – uma busca rápida no Google retorna centenas de artigos publicados recentemente que ensinam a apagar uma conta na ferramenta, como o publicado pelo Telegraph em 21 de março.

Toda essa insegurança só faz com que as empresas – principalmente as pequenas – pensem com mais cuidado na hora de investir na rede social. Ninguém quer ter seu nome associado a uma companhia que não consegue proteger os dados dos seus usuários e ainda possui um algoritmo inconstante, que muda suas políticas de distribuição de conteúdo com frequência e de forma arbitrária.

interna_facebook_02
Foto Divulgação

 

Pesquisas recentes já mostram que o uso do Facebook pelo público adolescente vem caindo ano após ano nos Estados Unidos e no Reino Unido. No Brasil, 73% dos usuários que pensam em abandonar a ferramenta no futuro próximo. Os cenários não deixam a menor dúvida: Mark Zuckerberg tem um desafio bem grande para enfrentar daqui pra frente.

 

* Texto de Vitor Albano. Parceria da Radio Ibiza com o Nex Coworking.

carregando