Conheça o Projeto Sonora, uma experiência que utiliza o som para te fazer viajar

PRA DESTACAR ·

Que a música é um importante fator para transformar qualquer experiência nossos leitores já sabem. Falamos aqui no Jornal sobre o poder da música até para o nosso cérebro. Mas conhecemos um projeto que nos fez pensar além: o Sonora.

Criado pelos músicos Bruno Garibaldi e Luisa Puterman, o Sonora consiste em uma experiência de imersão que se utiliza de som e palavra para criar narrativas, fantasias e deslocamentos.

Ao proporcionar elementos que instigam o repertório individual dos participantes, cria-se um diálogo entre a imaginação das pessoas e as paisagens construídas ao vivo.

Escuta, memória, imaginação e troca de informação são as tecnologias humanas que levam para um campo de pesquisa interdisciplinar que une música, literatura, psicoacústica, antropologia, cinema, realidade virtual e outros similares.

A atividade é realizada com os participantes vendados e adaptada aos diversos públicos, circunstâncias e conteúdos.

Conhecendo esse trabalho, nós ficamos apaixonados e quisemos logo saber mais dessa história.

snora_interna

Confira a entrevista que fizemos com o Bruno:

Radio Ibiza: Conte um pouco sobre vocês.

Bruno: A Luisa é produtora musical e sound designer e eu sou artista multimídia. Nos conhecemos na faculdade de História da Arte na PUC-SP, ficamos muito amigos e lá tivemos uma banda que não durou muito. Quando nos formamos cada um seguiu uma pesquisa e caminhos diferentes. Anos mais tarde, a Luisa recebeu um convite para uma residência artística e me chamou pra ir com ela. E foi nessa viagem que nos reconectamos pela a música e outras alucinações artísticas.

Radio Ibiza: Como surgiu a ideia para criar o projeto Sonora?

Bruno: O projeto nasceu durante uma residência artística numa cidade chamada Pedra Azul no Vale do Jequitinhonha, Minas Gerais. Dentre várias criações e atividades que criamos na residência, tínhamos o desejo de desenvolver alguma experiência sonora com as crianças da periferia da cidade. A ideia era simples – vendar as crianças e levá-las do sertão para uma viagem de barco até o continente africano. Agora, imagina, crianças que nunca tinham visto o mar foram levadas em uma viagem de barco por oceanos tempestuosos, tambores ancestrais e um continente que os recebeu em festa. Dois dias depois recebemos um convite para desenvolver a mesma experiência na penitenciária da cidade. Foi um dia muito forte onde não imaginávamos que som, palavra e imaginação eram tão poderosos. Desde então, voltamos para São Paulo e começamos a pesquisar sobre o que fazíamos e tocar diferentes contextos como outras prisões, hospitais, escolas, eventos e empresas.

Radio Ibiza: Quais foram as inspirações pra criar?

Bruno: Dentro da lógica de imersão nós percebemos que o Sonora flertava com varias disciplinas artísticas como realidade virtual, cinema, literatura, música, entre outros. A liberdade que o som nos dá enquanto produtor de imagens nos proporciona a criação de infinitas narrativas. Elas podem surgir de uma ideia, como ‘vamos até África de barco!’. Ou também podem nascer de um tema, como o da astronomia onde construímos junto com astrônomos e cientistas do Planetário do Ibirapuera o que seria necessário para criar uma viagem interplanetária. A partir disso, pesquisamos os sons que precisam ser coletados, como a de embarcação ou do oceano, e, com eles, estruturamos a narrativa dos roteiros fazendo uma colagem que recrie as paisagens sonoras.

O nascimento dos roteiros é fruto da organicidade, pesquisa e imaginação, o que pressupõe entender que eles nunca estão terminados. Pode entrar uma cena nova, sair outra, e dependendo do contexto podemos sugerir novas adaptações. O roteiro é feito de uma mistura de questionamentos, observações, comandos, sensações, e isso, inevitavelmente, nos põe sempre em movimento.

Radio Ibiza: Qual é a importância deste projeto?

Bruno: Apesar do projeto ter apenas dois anos, nós demoramos um tempo para compreender como nosso trabalho beneficiava as pessoas. E até o momento chegamos no entendimento que desenvolvemos tecnologias humanas que ativam a inteligência sócioemocional das pessoas. Ou seja, criamos um ambiente de escuta e co-imaginação que conduz o participante a protagonizar uma narrativa que dialógo com suas sensações, memórias e pensamentos. Considerando que somos bombardeados por imagens a todo momento que pautam nossa leitura e nossa relação com o mundo, nós por meio do som e palavra acessamos um outro canal de sensibilidade e percepção da realidade. É como um reaprendizado do sensível que convoca outro estado de consciência do corpo e da mente.

Mas cada contexto ressignifica a ferramenta e se apropria dela. Em uma clínica ou hospital, o Sonora assume uma conotação mais terapêutica; numa instituição de ensino, um caráter mais formativo; numa empresa ela assume o potencial de acelerador de processos criativos.

Radio Ibiza: Conte um caso que marcou vocês.

Bruno: Temos tantos casos que daria para começar a escrever um livro. Mas tem dois casos emblemáticos que gostamos de lembrar. A primeira vez que tocamos numa prisão, após terminar a imersão, os detentos começaram a se levantar e nos trazer coisas que eles produziam na prisão como tapetes, chaveiros, entre outros produtos. E quando perguntamos para eles o porquê deles estarem fazendo aquilo, eles nos responderam que era uma forma de agradecer a nós por termos tirado eles da prisão de alguma forma.

Outra vez, tocamos em um congresso de educação e criamos um roteiro que fazia um viagem no tempo para o primeiro dia de escola dos professores. A intenção era que os professores revisitassem a experiência de ser um aluno para repensar suas práticas pedagógicas e debatermos como seria a escola do futuro. Enfim, durante a conversa, depois da imersão, uma professora veio nos abraçar chorando e agradecer porque ela tinha conseguido entender porque o filho dela estava tendo problemas na escola.

Radio Ibiza: Qual é a ideia pro futuro do projeto? Como querem seguir daqui pra frente?

Bruno: Existem algumas perguntas que nos instigam a continuar com o projeto como: o que nos torna humanos? O que é tecnologia humana? O que há de tecnológico em nosso corpo?

Neste sentido, imaginação, memória, comunicação, presença, realidade virtual e escuta são alguns dos temas que norteiam o projeto que se aventura pelos campos ainda incipientes da neuroestética. (uma área de pesquisa recente dentro da neurociência empírica que estuda percepções e vivências artísticas de uma perspectiva cerebral.)

O desejo por trás do projeto é que possamos, através das experiências de imersão, entender melhor a relação das pessoas com as tecnologias do corpo e como explorar este autoconhecimento em prol de suas vidas. E talvez assim expandir as possibilidades estéticas de criação de experiências dessa natureza.

Costumamos dizer que onde tem pessoas tem trabalho. Dessa forma seguimos sempre com muita vontade de construir mais e novos ambientes de experimentação propício a novos modos de encontro e de produção.

carregando